Recife,
06/10/2008
Querida mana:
Era uma vez..... Há muito tempo... No começo
dos tempos... Na época em que os bichos falavam....
Você se lembra?
As horas mágicas, antes de dormir, aconchegadas à nossa mãe, o calor de suas
palavras que nos aqueciam mais que os cobertores, ouvindo as incríveis
histórias de monstros, deuses, fadas, ninfas, heróis, bichos inteligentes, que,
com astúcia, venciam os mais fortes ou mais velozes? Pais desalmados que
abandonavam filhos em florestas? Maridos terríveis, de uma noite só, até que
uma princesa esperta driblasse a morte e conquistasse a felicidade.... Tarefas
árduas a serem vencidas por heróis em viagens fantásticas... Princesas
imprudentes que aceitavam presentes de desconhecidas... Sereias que, com seu
canto, “encantavam” marinheiros... Impossível esquecer, sei disso, até que, por
sua vez, aconteceu de sermos nós as narradoras e os ouvintes enfeitiçados, nossos
próprios filhos.
As narrativas
maternas e suas leituras noturnas embalam nossas primeiras lembranças da
infância. Por associação, o entusiasmo com que nos lançamos à tarefa de
aprender volta-me à memória, principalmente motivadas por encontrar a chave que
nos permitisse ler, nós mesmas. E então conquistar o direito de levar para todo
lado, debaixo do braço, dentro da bolsa, um pedaço de mistério e encantamento.
Com a imaginação da infância, a fantasia e a realidade não eram entes distintos,
não sabíamos onde terminava uma e a outra começava. E acho que este aspecto era
o que mais apreciávamos. Por isso ao
chegar a nossa vez, com que deleite repetimos com nossas crianças, os mesmos
rituais, praticamos a mesma magia...
Acontece, maninha,
como você sabe, voltei à universidade, às aulas, às novas descobertas, em novos
livros. E eis que de repente, agora, no segundo período, descubro-me encantada,
admirada com a mesma velha magia. E em uma revista de filosofia, um autor me
revela que admiração é o que Aristóteles julgava necessária para o filosofar. E
na mesma revista, leio:
“nunca se protele o filosofar quando
se é jovem, nem canse o fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém é jamais
pouco maduro nem demasiado maduro para conquistar a saúde da alma. E quem diz
que a hora de filosofar não chegou ou já passou, assemelha-se ao que diz que
ainda não chegou ou já passou a hora de ser feliz”. Epicuro,
Descobri que,
parte da admiração que sinto pelas narrativas encontradas nos textos agora
pesquisados, ao contrário do que pensara na infância, quando me maravilhara pelo
fantástico, e mesmo então sentia, lá no fundo, alguma desconfiança, é que agora,
decorre do oposto, deslumbrar que é bem real o que eu tomara como sonho. Descubro
seriedade e interesse em muita coisa que pensara ser matéria apropriada para o
entretenimento e educação de crianças e adolescentes. Será que você está
entendendo alguma coisa desta maluquice que estou a afirmar?
Vou tentar
explicar melhor. A mitologia e as suas explicações das origens, do mundo, dos
homens, animais, plantas, dos elementos, as lendas e histórias narradas em
todas as culturas, às quais remetem aos mais antigos dos tempos, e que têm como
unidade serem atemporais e falarem aos sentimentos mais importantes do homem,
do seu temor à morte, seu sentido de existência, têm sido pauta e interesse de
intelectuais que, a partir do século XX, começaram a estudar o mito sob diversas
perspectivas. A ótica das sociedades arcaicas, por exemplo,
“Onde o
mito designa, ao contrário, uma “história verdadeira” e, ademais, extremamente
preciosa por seu caráter sagrado, exemplar e significativo”. (Eliade. 2000, p.7).
Como continua Mircea
Eliade, em Mito e Realidade, explicando que desde Xenófanes (cerca de 565-470 AC ), os gregos passaram
a criticar e a rejeitar as expressões “mitológicas” dos deuses cuja mitologia havia sido narrada
por Homero e reunida por Hesíodo. Os gregos foram retirando todo valor
religioso e metafísico dos mitos. Estes foram adquirindo o sentido do que não
pode existir realmente. O logos grego
substituía a ilusão do mito. Depois, com o judaísmo e o cristianismo, todas as
verdades que não fossem justificadas ou explicadas pelos dois testamentos,
passaram a ser definidas como falsidade, lendas.
O século XIX
trouxe três figuras determinantes para a desconstrução do sujeito racional e
todo poderoso legado pelo racionalismo de Descartes e modelado pelo iluminismo
de Kant. Foram eles: Darwin, Freud e Marx. Chega então Nietzsche e afirma:“não há fatos, só interpretações”. O
pensamento humano começa, então, lentamente a poder caminhar sem as amarras das
verdades que deixaram de ser absolutas.
No século XX, conhecemos
homens como Joseph Campbell que afirmou:
“dizem que o que todos procuramos é
um sentido para a vida. Não penso assim. Penso que o que estamos procurando é
uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no
plano puramente físico tenham ressonância no interior do nosso ser e de nossa
realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos.
É disso que se trata, afinal, e é o que essas pistas nos ajudam a procurar,
dentro de nós mesmos.” (Campbell. 1990, p.5).
Para Campbell,
os mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana.
Ernst Cassirer fala-nos também sobre o mito,
consoante Vladimir Fernandes, em artigo publicado na Revista Notandum
“...com o mito o homem começa a
aprender uma nova e estranha arte: a arte de exprimir, e isso significa
organizar, os seus instintos mais profundamente enraizados, as suas esperanças
e temores.” (1946, p.64) Por isso, o pensamento mítico não deve ser
compreendido como mera ilusão ou patologia, mas sim como uma forma de
objetivação da realidade mais primária e de caráter específico.”
No entanto, foi com Carl Jung que o assunto
realmente me tocou mais profundamente.
“Ele viu nas semelhanças entre
mitos de diversas sociedades e nos sonhos de seus pacientes a prova da
existência de uma instância que ultrapassa o inconsciente pessoal, a manifestação
de um inconsciente comum à espécie humana, o inconsciente coletivo”. (Revista
Educação Especial, agosto 2008. Jung Pensa a Educação).
Cláudio Saiani,
em seu livro Jung e a Educação, complementa melhor com as palavras do próprio
Jung:
“Poderíamos citar numerosos exemplos. Todos eles provariam o mesmo, isto
é, que aquilo que para nós é fantasia oculta, outrora esteve exposto publicamente.
Aquilo que para nós emerge em sonhos e fantasias, antigamente era hábito
consciente e/ou convicção geral. Mas aquilo que era tão forte, aquilo que em
outros tempos, constituía a esfera espiritual de um povo altamente
desenvolvido, não pode ter desaparecido totalmente da alma humana no decorrer
de poucas gerações” (Jung, 1986, p.23)
Os mitos, o
inconsciente coletivo e seus reflexos na ação humana despertam-me interesse, e
então como sempre acontece nesse caso, vejo o reflexo do mito para onde depare
o meu olhar. Vejo o mito frequentemente expresso na coluna do jornal diário,
nos rituais a que nos submetemos conscientemente ou não, na forma como
organizamos o nosso pensamento, até os mais prosaicos. Afinal se o interesse
despertado pelas histórias infantis, naquele que considero hoje um verdadeiro
ritual das nossas noites de criança, foi um determinante na energia a que nos
lançamos para o nosso aprendizado da leitura-escrita, muito importante deve ser
para a educação, para a pedagogia.
Para Ernst Cassirer,
continua Vladimir Fernandes no mesmo artigo publicado na Revista Notandum,
“a energia espiritual (Energie des Geistes) deve ser
compreendida como aquilo que o sujeito efetua espontaneamente, ou seja, o
sujeito não recebe passivamente as sensações exteriores, mas sim as enlaça com
signos sensíveis significativos. Daí que toda relação do homem com a
“realidade” não é imediata, mas mediata através das várias construções
simbólicas. A produção do simbólico, não somente a linguagem é espontânea,
todavia é também condição imprescindível para captação do sensível. Segundo
Cassirer, esses signos ou imagens não devem ser vistos como um obstáculo, mas
sim como a condição que possibilita a relação do homem com o mundo, do
espiritual com o sensível. Através de signos e imagens pode-se “fixar”
determinados pontos do fluxo temporal das experiências.” (1956, p.164).
Se entendi corretamente,
no nosso inconsciente se armazenam mitos coletivos, os arquétipos de Jung, herdados, os quais são re-significados pela
nossa bio-história, ou mediados pelo meio sócio-histórico em que vivemos,
temperados por nossas vivências e
experiências pessoais e nossa constituição biológica. Eles nos permitem criar
energia, alimentar nosso espírito, nossos sentimentos que são traduzidos nos
pensamentos com que interpretamos o mundo e nos possibilitam a comunicação com
ele.
Isso explica que
alguns artistas de cada época, sejam pintores, escultores, poetas, escritores,
músicos ou mesmo arquitetos consigam exprimir com suas obras esse sentimento
que é coletivo, trazem à luz algo com que nos identificamos tão completamente,
falam diretamente à nossa alma, mas não sabíamos exprimir nós mesmos. Eles
falam por nós e além de nós. Dizemos que são atemporais. Eles deixam a
imaginação falar e ela flui, traduzindo uma linguagem universal por todos
entendida.
Alguns artistas
como George Orwel, o qual na contramão de seus colegas intelectuais de
esquerda, à época, conseguiu captar e expressar o mito subjacente em atitudes e
revoluções consideradas inovadoras, de vanguarda, admiradas por suas ideologia
de redenção do novo homem num novo mundo perfeito. Seu livro A Revolução dos Bichos de 1945, satiriza
os regimes totalitários que na verdade tentaram reeditar o Mito da Idade de Ouro. Entretanto, um outro mito formou-se. Seu
livro foi utilizado como propaganda anticomunista durante a guerra fria. E isso
foi uma deturpação. Ele era um socialista democrático. E que era capaz de
elaborar pensamento independente e foi com coragem e independência que criticou
o totalitarismo. Ele reconheceu e não concordava com o sentimento que acometia
os intelectuais de esquerdas, dispostos a silenciar suas críticas a esse
totalitarismo.
Daí a
importância do imaginário, do sonho pessoal, da meditação e da reflexão. Criar
condições na educação para que as crianças se acostumem a ter espírito crítico
e reflitam além da propaganda falaciosa e/ou enganosa, seja de produtos ou
idéias. Descubram por si o que está sendo dito por trás do slogan. Desconfiem
de salvadores da pátria de qualquer verniz. Reconheçam a sede de poder dos que,
de cima para baixo, querem reeditar novas idades de ouro. Descubram também a
manipulação existente na sociedade do consumo desenfreado.
Mesmo a ciência
que procura objetividade, racionalidade, não se furta ao imaginário e à
reflexão. Newton era um estudioso, um cientista, mas foi num momento de
devaneio, embaixo de uma árvore, em observação contemplativa, que matou sua
charada, formulou a hipótese que resultou na Lei da Gravidade. Einstein
confessou que era lento, talvez também um sonhador, o tempo para ele,
diferente, tinha seu próprio ritmo. Isso lhe permitiu olhar para tempo e espaço
sob outro prisma e chegar à Teoria da Relatividade.
Da Vinci há
muito tempo, Júlio Verne mais recentemente, sonharam, imaginaram e conceberam
máquinas e instrumentos que muito depois se tornariam exeqüíveis. A lista de
exemplos do poder da imaginação é enorme. Cada um de nós é, portanto,
depositário inconsciente e consciente de sentimentos, crenças e conquistas da
humanidade que nos precedeu. A respeito disso encontrei numa revista eletrônica,
um texto de J. Cândido Martins o qual afirma que:
“a própria oposição entre ciência e
imaginário foi abalada por pensadores como G. Bachelard, que era um filósofo da
ciência. No novo paradigma epistemológico que vivemos, já não faz sentido falar
nas fronteiras rígidas e intransponíveis entre a pretensa objetividade das
ciências da natureza e a irrecusável subjetividade das ciências do espírito. A
metáfora e o símbolo invadiram o tradicional campo da ciência, demonstra G.
Bachelard.”
Por outro lado,
ao longo do tempo, certas crenças e sabedorias milenares foram sendo
esquecidas, desprezadas. As conquistas materiais e o mito ocidental da
superioridade do homem o fizeram esquecer que o homem faz parte da natureza e é
dela indissociado. Essa ruptura é traduzida no mal causado ao nosso planeta de
que só agora começamos a tomar consciência.
Claude
Lévi-Strauss, ao estudar os mitos e rituais dos povos sem escritas, bem como as
filosofias hinduísta e budista e ainda os estóicos romanos, intuiu o quanto seguíamos
na direção contrária daquela que a humanidade pensava estar caminhando. Tanto
que, em 1976 propôs no parlamento francês uma nova Declaração dos Direitos que
começava assim: “O homem é um ser vivo...”
Ao contrário do
ocidente que impôs suas regras e máquinas ao resto do mundo, o oriente nunca
compartilhou da idéia de superioridade do homem sobre os outros animais e
espécies vivas.
Quem sabe a
educação possa partilhar do interesse dos intelectuais que redescobriram a
força e a importância do imaginário, dos mitos e rituais, das sabedorias ditas
“primitivas” e introduza sistematicamente, desde a pré-escola, novas formas de
ver o mundo.
A pertinência da
mitologia já foi mais do que comprovada. Na lingüística, nas ciências, nas
comunicações, nas artes e também na psicanálise e na psicologia analítica.
Creio que chegou a hora da educação despertar realmente para ela, enxergar além
do folclore, do exótico, da história para fazer criança dormir... Possa a
cultura dos outros povos constituintes da nossa nação, além da branca
ocidental, tão exaltada, ser conhecida. Que os nossos mitos sejam analisados.
Oxalá descobrir e/ou refazer mitos coletivos do povo brasileiro, quem sabe resulte
em mitos saudáveis, oriundo do reconhecimento positivo da riqueza da nossa
miscigenação. Que o imaginário possa criar pontes entre os saberes, como
desejava G. Durand, o antropólogo. Que a imaginação e reflexão das crianças
sejam estimuladas, que as auxiliem na conquista de suas individualidades e
sempre em comunhão com a
alma coletiva, na contramão do individualismo, e, sobretudo, possibilite a
formação de crianças com consciência crítica e inovadora, numa perspectiva planetária.
Bem, creio que o
meu entusiasmo pelo assunto não passou despercebido... Veja a que as
reminiscências possibilitam... Toda a
energia empreendida à pesquisa a que me dispus na intenção de melhor elaborar o
meu pensamento, nesta carta, foi fruto da carga afetiva impressa no meu
inconsciente, pelo assunto. Espero que não a tenha entediado...
Um abraço da
mana,
Vera
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