sábado, 2 de junho de 2012

Mito, sonho e mais imaginação na educação!


Recife, 06/10/2008

Querida mana:
Era uma vez..... Há muito tempo... No começo dos tempos... Na época em que os bichos falavam....
Você se lembra? As horas mágicas, antes de dormir, aconchegadas à nossa mãe, o calor de suas palavras que nos aqueciam mais que os cobertores, ouvindo as incríveis histórias de monstros, deuses, fadas, ninfas, heróis, bichos inteligentes, que, com astúcia, venciam os mais fortes ou mais velozes? Pais desalmados que abandonavam filhos em florestas? Maridos terríveis, de uma noite só, até que uma princesa esperta driblasse a morte e conquistasse a felicidade.... Tarefas árduas a serem vencidas por heróis em viagens fantásticas... Princesas imprudentes que aceitavam presentes de desconhecidas... Sereias que, com seu canto, “encantavam” marinheiros... Impossível esquecer, sei disso, até que, por sua vez, aconteceu de sermos nós as narradoras e os ouvintes enfeitiçados, nossos próprios filhos.

As narrativas maternas e suas leituras noturnas embalam nossas primeiras lembranças da infância. Por associação, o entusiasmo com que nos lançamos à tarefa de aprender volta-me à memória, principalmente motivadas por encontrar a chave que nos permitisse ler, nós mesmas. E então conquistar o direito de levar para todo lado, debaixo do braço, dentro da bolsa, um pedaço de mistério e encantamento. Com a imaginação da infância, a fantasia e a realidade não eram entes distintos, não sabíamos onde terminava uma e a outra começava. E acho que este aspecto era o que mais apreciávamos.  Por isso ao chegar a nossa vez, com que deleite repetimos com nossas crianças, os mesmos rituais, praticamos a mesma magia...

Acontece, maninha, como você sabe, voltei à universidade, às aulas, às novas descobertas, em novos livros. E eis que de repente, agora, no segundo período, descubro-me encantada, admirada com a mesma velha magia. E em uma revista de filosofia, um autor me revela que admiração é o que Aristóteles julgava necessária para o filosofar. E na mesma revista, leio:
 “nunca se protele o filosofar quando se é jovem, nem canse o fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado maduro para conquistar a saúde da alma. E quem diz que a hora de filosofar não chegou ou já passou, assemelha-se ao que diz que ainda não chegou ou já passou a hora de ser feliz”. Epicuro,
em A Filosofia e o seu Objetivo (Abril Cultural, 1973), citado na revista Discutindo Filosofia, ano3, nº 14, p.64. Qualquer dúvida que porventura ainda me ocorresse, pelo acerto da decisão da volta aos estudos, na minha idade, na pós-aposentadoria, desvaneceu...

Descobri que, parte da admiração que sinto pelas narrativas encontradas nos textos agora pesquisados, ao contrário do que pensara na infância, quando me maravilhara pelo fantástico, e mesmo então sentia, lá no fundo, alguma desconfiança, é que agora, decorre do oposto, deslumbrar que é bem real o que eu tomara como sonho. Descubro seriedade e interesse em muita coisa que pensara ser matéria apropriada para o entretenimento e educação de crianças e adolescentes. Será que você está entendendo alguma coisa desta maluquice que estou a afirmar?

Vou tentar explicar melhor. A mitologia e as suas explicações das origens, do mundo, dos homens, animais, plantas, dos elementos, as lendas e histórias narradas em todas as culturas, às quais remetem aos mais antigos dos tempos, e que têm como unidade serem atemporais e falarem aos sentimentos mais importantes do homem, do seu temor à morte, seu sentido de existência, têm sido pauta e interesse de intelectuais que, a partir do século XX, começaram a estudar o mito sob diversas perspectivas. A ótica das sociedades arcaicas, por exemplo,
 “Onde o mito designa, ao contrário, uma “história verdadeira” e, ademais, extremamente preciosa por seu caráter sagrado, exemplar e significativo”. (Eliade. 2000, p.7).

Como continua Mircea Eliade, em Mito e Realidade, explicando que desde Xenófanes (cerca de 565-470 AC), os gregos passaram a criticar e a rejeitar as expressões “mitológicas”  dos deuses cuja mitologia havia sido narrada por Homero e reunida por Hesíodo. Os gregos foram retirando todo valor religioso e metafísico dos mitos. Estes foram adquirindo o sentido do que não pode existir realmente. O logos grego substituía a ilusão do mito. Depois, com o judaísmo e o cristianismo, todas as verdades que não fossem justificadas ou explicadas pelos dois testamentos, passaram a ser definidas como falsidade, lendas.

O século XIX trouxe três figuras determinantes para a desconstrução do sujeito racional e todo poderoso legado pelo racionalismo de Descartes e modelado pelo iluminismo de Kant. Foram eles: Darwin, Freud e Marx.  Chega então Nietzsche e afirma:“não há fatos, só interpretações”. O pensamento humano começa, então, lentamente a poder caminhar sem as amarras das verdades que deixaram de ser absolutas.

No século XX, conhecemos homens como Joseph Campbell que afirmou:
 “dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico tenham ressonância no interior do nosso ser e de nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. É disso que se trata, afinal, e é o que essas pistas nos ajudam a procurar, dentro de nós mesmos.” (Campbell. 1990, p.5).
Para Campbell, os mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana.
 Ernst Cassirer fala-nos também sobre o mito, consoante Vladimir Fernandes, em artigo publicado na Revista Notandum
 “...com o mito o homem começa a aprender uma nova e estranha arte: a arte de exprimir, e isso significa organizar, os seus instintos mais profundamente enraizados, as suas esperanças e temores.” (1946, p.64) Por isso, o pensamento mítico não deve ser compreendido como mera ilusão ou patologia, mas sim como uma forma de objetivação da realidade mais primária e de caráter específico.”

 No entanto, foi com Carl Jung que o assunto realmente me tocou mais profundamente.
 “Ele viu nas semelhanças entre mitos de diversas sociedades e nos sonhos de seus pacientes a prova da existência de uma instância que ultrapassa o inconsciente pessoal, a manifestação de um inconsciente comum à espécie humana, o inconsciente coletivo”. (Revista Educação Especial, agosto 2008. Jung Pensa a Educação).

Cláudio Saiani, em seu livro Jung e a Educação, complementa melhor com as palavras do próprio Jung:
“Poderíamos citar numerosos exemplos. Todos eles provariam o mesmo, isto é, que aquilo que para nós é fantasia oculta, outrora esteve exposto publicamente. Aquilo que para nós emerge em sonhos e fantasias, antigamente era hábito consciente e/ou convicção geral. Mas aquilo que era tão forte, aquilo que em outros tempos, constituía a esfera espiritual de um povo altamente desenvolvido, não pode ter desaparecido totalmente da alma humana no decorrer de poucas gerações” (Jung, 1986, p.23)

Os mitos, o inconsciente coletivo e seus reflexos na ação humana despertam-me interesse, e então como sempre acontece nesse caso, vejo o reflexo do mito para onde depare o meu olhar. Vejo o mito frequentemente expresso na coluna do jornal diário, nos rituais a que nos submetemos conscientemente ou não, na forma como organizamos o nosso pensamento, até os mais prosaicos. Afinal se o interesse despertado pelas histórias infantis, naquele que considero hoje um verdadeiro ritual das nossas noites de criança, foi um determinante na energia a que nos lançamos para o nosso aprendizado da leitura-escrita, muito importante deve ser para a educação, para a pedagogia.

Para Ernst Cassirer, continua Vladimir Fernandes no mesmo artigo publicado na Revista Notandum,
“a energia espiritual (Energie des Geistes) deve ser compreendida como aquilo que o sujeito efetua espontaneamente, ou seja, o sujeito não recebe passivamente as sensações exteriores, mas sim as enlaça com signos sensíveis significativos. Daí que toda relação do homem com a “realidade” não é imediata, mas mediata através das várias construções simbólicas. A produção do simbólico, não somente a linguagem é espontânea, todavia é também condição imprescindível para captação do sensível. Segundo Cassirer, esses signos ou imagens não devem ser vistos como um obstáculo, mas sim como a condição que possibilita a relação do homem com o mundo, do espiritual com o sensível. Através de signos e imagens pode-se “fixar” determinados pontos do fluxo temporal das experiências.” (1956, p.164).

Se entendi corretamente, no nosso inconsciente se armazenam mitos coletivos, os arquétipos de Jung, herdados, os quais são re-significados pela nossa bio-história, ou mediados pelo meio sócio-histórico em que vivemos, temperados  por nossas vivências e experiências pessoais e nossa constituição biológica. Eles nos permitem criar energia, alimentar nosso espírito, nossos sentimentos que são traduzidos nos pensamentos com que interpretamos o mundo e nos possibilitam a comunicação com ele.

Isso explica que alguns artistas de cada época, sejam pintores, escultores, poetas, escritores, músicos ou mesmo arquitetos consigam exprimir com suas obras esse sentimento que é coletivo, trazem à luz algo com que nos identificamos tão completamente, falam diretamente à nossa alma, mas não sabíamos exprimir nós mesmos. Eles falam por nós e além de nós. Dizemos que são atemporais. Eles deixam a imaginação falar e ela flui, traduzindo uma linguagem universal por todos entendida.

Alguns artistas como George Orwel, o qual na contramão de seus colegas intelectuais de esquerda, à época, conseguiu captar e expressar o mito subjacente em atitudes e revoluções consideradas inovadoras, de vanguarda, admiradas por suas ideologia de redenção do novo homem num novo mundo perfeito. Seu livro A Revolução dos Bichos de 1945, satiriza os regimes totalitários que na verdade tentaram reeditar o Mito da Idade de Ouro. Entretanto, um outro mito formou-se. Seu livro foi utilizado como propaganda anticomunista durante a guerra fria. E isso foi uma deturpação. Ele era um socialista democrático. E que era capaz de elaborar pensamento independente e foi com coragem e independência que criticou o totalitarismo. Ele reconheceu e não concordava com o sentimento que acometia os intelectuais de esquerdas, dispostos a silenciar suas críticas a esse totalitarismo.

Daí a importância do imaginário, do sonho pessoal, da meditação e da reflexão. Criar condições na educação para que as crianças se acostumem a ter espírito crítico e reflitam além da propaganda falaciosa e/ou enganosa, seja de produtos ou idéias. Descubram por si o que está sendo dito por trás do slogan. Desconfiem de salvadores da pátria de qualquer verniz. Reconheçam a sede de poder dos que, de cima para baixo, querem reeditar novas idades de ouro. Descubram também a manipulação existente na sociedade do consumo desenfreado.

Mesmo a ciência que procura objetividade, racionalidade, não se furta ao imaginário e à reflexão. Newton era um estudioso, um cientista, mas foi num momento de devaneio, embaixo de uma árvore, em observação contemplativa, que matou sua charada, formulou a hipótese que resultou na Lei da Gravidade. Einstein confessou que era lento, talvez também um sonhador, o tempo para ele, diferente, tinha seu próprio ritmo. Isso lhe permitiu olhar para tempo e espaço sob outro prisma e chegar à Teoria da Relatividade.

Da Vinci há muito tempo, Júlio Verne mais recentemente, sonharam, imaginaram e conceberam máquinas e instrumentos que muito depois se tornariam exeqüíveis. A lista de exemplos do poder da imaginação é enorme. Cada um de nós é, portanto, depositário inconsciente e consciente de sentimentos, crenças e conquistas da humanidade que nos precedeu. A respeito disso encontrei numa revista eletrônica, um texto de J. Cândido Martins o qual afirma que:
“a própria oposição entre ciência e imaginário foi abalada por pensadores como G. Bachelard, que era um filósofo da ciência. No novo paradigma epistemológico que vivemos, já não faz sentido falar nas fronteiras rígidas e intransponíveis entre a pretensa objetividade das ciências da natureza e a irrecusável subjetividade das ciências do espírito. A metáfora e o símbolo invadiram o tradicional campo da ciência, demonstra G. Bachelard.”

Por outro lado, ao longo do tempo, certas crenças e sabedorias milenares foram sendo esquecidas, desprezadas. As conquistas materiais e o mito ocidental da superioridade do homem o fizeram esquecer que o homem faz parte da natureza e é dela indissociado. Essa ruptura é traduzida no mal causado ao nosso planeta de que só agora começamos a tomar consciência.

Claude Lévi-Strauss, ao estudar os mitos e rituais dos povos sem escritas, bem como as filosofias hinduísta e budista e ainda os estóicos romanos, intuiu o quanto seguíamos na direção contrária daquela que a humanidade pensava estar caminhando. Tanto que, em 1976 propôs no parlamento francês uma nova Declaração dos Direitos que começava assim: “O homem é um ser vivo...”
Ao contrário do ocidente que impôs suas regras e máquinas ao resto do mundo, o oriente nunca compartilhou da idéia de superioridade do homem sobre os outros animais e espécies vivas.

Quem sabe a educação possa partilhar do interesse dos intelectuais que redescobriram a força e a importância do imaginário, dos mitos e rituais, das sabedorias ditas “primitivas” e introduza sistematicamente, desde a pré-escola, novas formas de ver o mundo.
A pertinência da mitologia já foi mais do que comprovada. Na lingüística, nas ciências, nas comunicações, nas artes e também na psicanálise e na psicologia analítica. Creio que chegou a hora da educação despertar realmente para ela, enxergar além do folclore, do exótico, da história para fazer criança dormir... Possa a cultura dos outros povos constituintes da nossa nação, além da branca ocidental, tão exaltada, ser conhecida. Que os nossos mitos sejam analisados. Oxalá descobrir e/ou refazer mitos coletivos do povo brasileiro, quem sabe resulte em mitos saudáveis, oriundo do reconhecimento positivo da riqueza da nossa miscigenação. Que o imaginário possa criar pontes entre os saberes, como desejava G. Durand, o antropólogo. Que a imaginação e reflexão das crianças sejam estimuladas, que as auxiliem na conquista de suas individualidades e sempre em comunhão com a alma coletiva, na contramão do individualismo, e, sobretudo, possibilite a formação de crianças com consciência crítica e inovadora, numa perspectiva planetária.

Bem, creio que o meu entusiasmo pelo assunto não passou despercebido... Veja a que as reminiscências possibilitam...  Toda a energia empreendida à pesquisa a que me dispus na intenção de melhor elaborar o meu pensamento, nesta carta, foi fruto da carga afetiva impressa no meu inconsciente, pelo assunto. Espero que não a tenha entediado...
Um abraço da mana,
Vera










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