segunda-feira, 4 de junho de 2012

Elogiar do jeito certo!

Gostei muito deste texto, autor desconhecido


Recentemente um grupo de crianças passou por um teste muito interessante.
Psicólogos propuseram uma tarefa de média dificuldade, mas que as crianças executariam sem grandes problemas.Todas conseguiram terminar a tarefa depois de certo tempo.
Em seguida, foram divididas em dois gruposo grupo A foi elogiado quanto à inteligência. Uau, como você é inteligente! Que esperta você é! Menino, que orgulho de ver o quanto você é genial! E outros elogios à capacidade de cada criança.
O grupo B foi elogiado quanto ao esforço. Menina, gostei de ver o quanto você se dedicou na tarefa!Menino, que legal ter visto seu esforço!Que persistência você mostrou. Tentou, tentou, até conseguir, muito bem! E outros elogios relacionados ao trabalho realizado e não à criança em si.
Depois dessa fase, uma nova tarefa de dificuldade equivalente à primeira foi proposta aos dois grupos de crianças.
Elas não eram obrigadas a cumprir a tarefa, podiam escolher se queriam ou não, sem qualquer tipo de consequência.
As respostas das crianças surpreenderam. A grande maioria do grupo A simplesmente recusou a segunda tarefa.
As crianças não queriam nem tentar. Por outro lado, quase todas as do grupo B aceitaram tentar. Não recusaram a nova tarefa.
A explicação é simples e nos ajuda a compreender como elogiar nossos filhoso ser humano foge de experiências que possam ser desagradáveis. As crianças inteligentes não querem o sentimento de frustração de não conseguir realizar uma tarefa, pois isso pode modificar a imagem que os adultos têm delas.
Se eu não conseguir, eles não vão mais dizer que sou inteligente.
As esforçadas não ficam com medo de tentar, pois mesmo que não consigam é o esforço que será elogiado.
No entanto, isso não é tudo. Além dos conteúdos escolares, nossos filhos precisam aprender valores, princípios e ética.
Precisam respeitar as diferenças, lutar contra o preconceito, adquirir hábitos saudáveis e construir amizades sólidas.
Não se consegue nada disso por meio de elogios frágeis, focados no ego de cada um. É preciso que sejam incentivados constantemente a agir assim. Isso se faz com elogios, feedbacks e incentivos ao comportamento esperado.
Nossos filhos precisam ouvir frases como
  – Que bom que você o ajudou, você tem um bom coração.
 – Parabéns, meu filho, por ter dito a verdade apesar de estar com medo... Você é ético.
  –  Filha, fiquei orgulhoso de você ter dado atenção àquela menina nova ao invés de tê-la excluído como algumas colegas fizeram... Você é solidária.
Elogios desse tipo estão fundamentados em ações reais e reforçam o comportamento da criança, que tenderá a repeti-los. Isso não é tática paterna, é incentivo real.
Elogiar superficialmente é mais fácil para os educadores, pois tais expressões quase sempre são padrões e não exigem reflexão por parte de quem as diz.
Mas, os pais esforçados não devem estar atrás de soluções fáceis, mas sim das melhores soluções para a educação de seus rebentos.
Aprendamos, assim, a elogiar corretamente, reforçando comportamentos positivos, contribuindo na formação de homens e mulheres de bem.
                                                                                                              



sábado, 2 de junho de 2012

Mito, sonho e mais imaginação na educação!


Recife, 06/10/2008

Querida mana:
Era uma vez..... Há muito tempo... No começo dos tempos... Na época em que os bichos falavam....
Você se lembra? As horas mágicas, antes de dormir, aconchegadas à nossa mãe, o calor de suas palavras que nos aqueciam mais que os cobertores, ouvindo as incríveis histórias de monstros, deuses, fadas, ninfas, heróis, bichos inteligentes, que, com astúcia, venciam os mais fortes ou mais velozes? Pais desalmados que abandonavam filhos em florestas? Maridos terríveis, de uma noite só, até que uma princesa esperta driblasse a morte e conquistasse a felicidade.... Tarefas árduas a serem vencidas por heróis em viagens fantásticas... Princesas imprudentes que aceitavam presentes de desconhecidas... Sereias que, com seu canto, “encantavam” marinheiros... Impossível esquecer, sei disso, até que, por sua vez, aconteceu de sermos nós as narradoras e os ouvintes enfeitiçados, nossos próprios filhos.

As narrativas maternas e suas leituras noturnas embalam nossas primeiras lembranças da infância. Por associação, o entusiasmo com que nos lançamos à tarefa de aprender volta-me à memória, principalmente motivadas por encontrar a chave que nos permitisse ler, nós mesmas. E então conquistar o direito de levar para todo lado, debaixo do braço, dentro da bolsa, um pedaço de mistério e encantamento. Com a imaginação da infância, a fantasia e a realidade não eram entes distintos, não sabíamos onde terminava uma e a outra começava. E acho que este aspecto era o que mais apreciávamos.  Por isso ao chegar a nossa vez, com que deleite repetimos com nossas crianças, os mesmos rituais, praticamos a mesma magia...

Acontece, maninha, como você sabe, voltei à universidade, às aulas, às novas descobertas, em novos livros. E eis que de repente, agora, no segundo período, descubro-me encantada, admirada com a mesma velha magia. E em uma revista de filosofia, um autor me revela que admiração é o que Aristóteles julgava necessária para o filosofar. E na mesma revista, leio:
 “nunca se protele o filosofar quando se é jovem, nem canse o fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado maduro para conquistar a saúde da alma. E quem diz que a hora de filosofar não chegou ou já passou, assemelha-se ao que diz que ainda não chegou ou já passou a hora de ser feliz”. Epicuro,
em A Filosofia e o seu Objetivo (Abril Cultural, 1973), citado na revista Discutindo Filosofia, ano3, nº 14, p.64. Qualquer dúvida que porventura ainda me ocorresse, pelo acerto da decisão da volta aos estudos, na minha idade, na pós-aposentadoria, desvaneceu...

Descobri que, parte da admiração que sinto pelas narrativas encontradas nos textos agora pesquisados, ao contrário do que pensara na infância, quando me maravilhara pelo fantástico, e mesmo então sentia, lá no fundo, alguma desconfiança, é que agora, decorre do oposto, deslumbrar que é bem real o que eu tomara como sonho. Descubro seriedade e interesse em muita coisa que pensara ser matéria apropriada para o entretenimento e educação de crianças e adolescentes. Será que você está entendendo alguma coisa desta maluquice que estou a afirmar?

Vou tentar explicar melhor. A mitologia e as suas explicações das origens, do mundo, dos homens, animais, plantas, dos elementos, as lendas e histórias narradas em todas as culturas, às quais remetem aos mais antigos dos tempos, e que têm como unidade serem atemporais e falarem aos sentimentos mais importantes do homem, do seu temor à morte, seu sentido de existência, têm sido pauta e interesse de intelectuais que, a partir do século XX, começaram a estudar o mito sob diversas perspectivas. A ótica das sociedades arcaicas, por exemplo,
 “Onde o mito designa, ao contrário, uma “história verdadeira” e, ademais, extremamente preciosa por seu caráter sagrado, exemplar e significativo”. (Eliade. 2000, p.7).

Como continua Mircea Eliade, em Mito e Realidade, explicando que desde Xenófanes (cerca de 565-470 AC), os gregos passaram a criticar e a rejeitar as expressões “mitológicas”  dos deuses cuja mitologia havia sido narrada por Homero e reunida por Hesíodo. Os gregos foram retirando todo valor religioso e metafísico dos mitos. Estes foram adquirindo o sentido do que não pode existir realmente. O logos grego substituía a ilusão do mito. Depois, com o judaísmo e o cristianismo, todas as verdades que não fossem justificadas ou explicadas pelos dois testamentos, passaram a ser definidas como falsidade, lendas.

O século XIX trouxe três figuras determinantes para a desconstrução do sujeito racional e todo poderoso legado pelo racionalismo de Descartes e modelado pelo iluminismo de Kant. Foram eles: Darwin, Freud e Marx.  Chega então Nietzsche e afirma:“não há fatos, só interpretações”. O pensamento humano começa, então, lentamente a poder caminhar sem as amarras das verdades que deixaram de ser absolutas.

No século XX, conhecemos homens como Joseph Campbell que afirmou:
 “dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico tenham ressonância no interior do nosso ser e de nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. É disso que se trata, afinal, e é o que essas pistas nos ajudam a procurar, dentro de nós mesmos.” (Campbell. 1990, p.5).
Para Campbell, os mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana.
 Ernst Cassirer fala-nos também sobre o mito, consoante Vladimir Fernandes, em artigo publicado na Revista Notandum
 “...com o mito o homem começa a aprender uma nova e estranha arte: a arte de exprimir, e isso significa organizar, os seus instintos mais profundamente enraizados, as suas esperanças e temores.” (1946, p.64) Por isso, o pensamento mítico não deve ser compreendido como mera ilusão ou patologia, mas sim como uma forma de objetivação da realidade mais primária e de caráter específico.”

 No entanto, foi com Carl Jung que o assunto realmente me tocou mais profundamente.
 “Ele viu nas semelhanças entre mitos de diversas sociedades e nos sonhos de seus pacientes a prova da existência de uma instância que ultrapassa o inconsciente pessoal, a manifestação de um inconsciente comum à espécie humana, o inconsciente coletivo”. (Revista Educação Especial, agosto 2008. Jung Pensa a Educação).

Cláudio Saiani, em seu livro Jung e a Educação, complementa melhor com as palavras do próprio Jung:
“Poderíamos citar numerosos exemplos. Todos eles provariam o mesmo, isto é, que aquilo que para nós é fantasia oculta, outrora esteve exposto publicamente. Aquilo que para nós emerge em sonhos e fantasias, antigamente era hábito consciente e/ou convicção geral. Mas aquilo que era tão forte, aquilo que em outros tempos, constituía a esfera espiritual de um povo altamente desenvolvido, não pode ter desaparecido totalmente da alma humana no decorrer de poucas gerações” (Jung, 1986, p.23)

Os mitos, o inconsciente coletivo e seus reflexos na ação humana despertam-me interesse, e então como sempre acontece nesse caso, vejo o reflexo do mito para onde depare o meu olhar. Vejo o mito frequentemente expresso na coluna do jornal diário, nos rituais a que nos submetemos conscientemente ou não, na forma como organizamos o nosso pensamento, até os mais prosaicos. Afinal se o interesse despertado pelas histórias infantis, naquele que considero hoje um verdadeiro ritual das nossas noites de criança, foi um determinante na energia a que nos lançamos para o nosso aprendizado da leitura-escrita, muito importante deve ser para a educação, para a pedagogia.

Para Ernst Cassirer, continua Vladimir Fernandes no mesmo artigo publicado na Revista Notandum,
“a energia espiritual (Energie des Geistes) deve ser compreendida como aquilo que o sujeito efetua espontaneamente, ou seja, o sujeito não recebe passivamente as sensações exteriores, mas sim as enlaça com signos sensíveis significativos. Daí que toda relação do homem com a “realidade” não é imediata, mas mediata através das várias construções simbólicas. A produção do simbólico, não somente a linguagem é espontânea, todavia é também condição imprescindível para captação do sensível. Segundo Cassirer, esses signos ou imagens não devem ser vistos como um obstáculo, mas sim como a condição que possibilita a relação do homem com o mundo, do espiritual com o sensível. Através de signos e imagens pode-se “fixar” determinados pontos do fluxo temporal das experiências.” (1956, p.164).

Se entendi corretamente, no nosso inconsciente se armazenam mitos coletivos, os arquétipos de Jung, herdados, os quais são re-significados pela nossa bio-história, ou mediados pelo meio sócio-histórico em que vivemos, temperados  por nossas vivências e experiências pessoais e nossa constituição biológica. Eles nos permitem criar energia, alimentar nosso espírito, nossos sentimentos que são traduzidos nos pensamentos com que interpretamos o mundo e nos possibilitam a comunicação com ele.

Isso explica que alguns artistas de cada época, sejam pintores, escultores, poetas, escritores, músicos ou mesmo arquitetos consigam exprimir com suas obras esse sentimento que é coletivo, trazem à luz algo com que nos identificamos tão completamente, falam diretamente à nossa alma, mas não sabíamos exprimir nós mesmos. Eles falam por nós e além de nós. Dizemos que são atemporais. Eles deixam a imaginação falar e ela flui, traduzindo uma linguagem universal por todos entendida.

Alguns artistas como George Orwel, o qual na contramão de seus colegas intelectuais de esquerda, à época, conseguiu captar e expressar o mito subjacente em atitudes e revoluções consideradas inovadoras, de vanguarda, admiradas por suas ideologia de redenção do novo homem num novo mundo perfeito. Seu livro A Revolução dos Bichos de 1945, satiriza os regimes totalitários que na verdade tentaram reeditar o Mito da Idade de Ouro. Entretanto, um outro mito formou-se. Seu livro foi utilizado como propaganda anticomunista durante a guerra fria. E isso foi uma deturpação. Ele era um socialista democrático. E que era capaz de elaborar pensamento independente e foi com coragem e independência que criticou o totalitarismo. Ele reconheceu e não concordava com o sentimento que acometia os intelectuais de esquerdas, dispostos a silenciar suas críticas a esse totalitarismo.

Daí a importância do imaginário, do sonho pessoal, da meditação e da reflexão. Criar condições na educação para que as crianças se acostumem a ter espírito crítico e reflitam além da propaganda falaciosa e/ou enganosa, seja de produtos ou idéias. Descubram por si o que está sendo dito por trás do slogan. Desconfiem de salvadores da pátria de qualquer verniz. Reconheçam a sede de poder dos que, de cima para baixo, querem reeditar novas idades de ouro. Descubram também a manipulação existente na sociedade do consumo desenfreado.

Mesmo a ciência que procura objetividade, racionalidade, não se furta ao imaginário e à reflexão. Newton era um estudioso, um cientista, mas foi num momento de devaneio, embaixo de uma árvore, em observação contemplativa, que matou sua charada, formulou a hipótese que resultou na Lei da Gravidade. Einstein confessou que era lento, talvez também um sonhador, o tempo para ele, diferente, tinha seu próprio ritmo. Isso lhe permitiu olhar para tempo e espaço sob outro prisma e chegar à Teoria da Relatividade.

Da Vinci há muito tempo, Júlio Verne mais recentemente, sonharam, imaginaram e conceberam máquinas e instrumentos que muito depois se tornariam exeqüíveis. A lista de exemplos do poder da imaginação é enorme. Cada um de nós é, portanto, depositário inconsciente e consciente de sentimentos, crenças e conquistas da humanidade que nos precedeu. A respeito disso encontrei numa revista eletrônica, um texto de J. Cândido Martins o qual afirma que:
“a própria oposição entre ciência e imaginário foi abalada por pensadores como G. Bachelard, que era um filósofo da ciência. No novo paradigma epistemológico que vivemos, já não faz sentido falar nas fronteiras rígidas e intransponíveis entre a pretensa objetividade das ciências da natureza e a irrecusável subjetividade das ciências do espírito. A metáfora e o símbolo invadiram o tradicional campo da ciência, demonstra G. Bachelard.”

Por outro lado, ao longo do tempo, certas crenças e sabedorias milenares foram sendo esquecidas, desprezadas. As conquistas materiais e o mito ocidental da superioridade do homem o fizeram esquecer que o homem faz parte da natureza e é dela indissociado. Essa ruptura é traduzida no mal causado ao nosso planeta de que só agora começamos a tomar consciência.

Claude Lévi-Strauss, ao estudar os mitos e rituais dos povos sem escritas, bem como as filosofias hinduísta e budista e ainda os estóicos romanos, intuiu o quanto seguíamos na direção contrária daquela que a humanidade pensava estar caminhando. Tanto que, em 1976 propôs no parlamento francês uma nova Declaração dos Direitos que começava assim: “O homem é um ser vivo...”
Ao contrário do ocidente que impôs suas regras e máquinas ao resto do mundo, o oriente nunca compartilhou da idéia de superioridade do homem sobre os outros animais e espécies vivas.

Quem sabe a educação possa partilhar do interesse dos intelectuais que redescobriram a força e a importância do imaginário, dos mitos e rituais, das sabedorias ditas “primitivas” e introduza sistematicamente, desde a pré-escola, novas formas de ver o mundo.
A pertinência da mitologia já foi mais do que comprovada. Na lingüística, nas ciências, nas comunicações, nas artes e também na psicanálise e na psicologia analítica. Creio que chegou a hora da educação despertar realmente para ela, enxergar além do folclore, do exótico, da história para fazer criança dormir... Possa a cultura dos outros povos constituintes da nossa nação, além da branca ocidental, tão exaltada, ser conhecida. Que os nossos mitos sejam analisados. Oxalá descobrir e/ou refazer mitos coletivos do povo brasileiro, quem sabe resulte em mitos saudáveis, oriundo do reconhecimento positivo da riqueza da nossa miscigenação. Que o imaginário possa criar pontes entre os saberes, como desejava G. Durand, o antropólogo. Que a imaginação e reflexão das crianças sejam estimuladas, que as auxiliem na conquista de suas individualidades e sempre em comunhão com a alma coletiva, na contramão do individualismo, e, sobretudo, possibilite a formação de crianças com consciência crítica e inovadora, numa perspectiva planetária.

Bem, creio que o meu entusiasmo pelo assunto não passou despercebido... Veja a que as reminiscências possibilitam...  Toda a energia empreendida à pesquisa a que me dispus na intenção de melhor elaborar o meu pensamento, nesta carta, foi fruto da carga afetiva impressa no meu inconsciente, pelo assunto. Espero que não a tenha entediado...
Um abraço da mana,
Vera










Um sonho, um projeto, uma realização


O PROJETO
     Para Gadotti (2000), “Todo projeto supõe ruptura com o presente e promessas para o futuro. Projetar significa tentar quebrar um estado confortável para arriscar-se, atravessar um período de instabilidade e buscar uma estabilidade em função de promessa que cada projeto contém de estado melhor do que o presente.”
     Afinal, projeto o que é? Uma antecipação do futuro, uma ruptura com o estabelecido? Uma afirmação pessoal ou coletiva?  Em arquitetura fica mais claro entender o conceito.  Com os seus croquis, no anteprojeto, vai o arquiteto esculpindo, com seus traços, a antecipação de algo que será construído.  Vai aperfeiçoando até que o projeto esteja pronto, ilustrado com recursos de perspectivas e maquetes.
     Quase concomitantemente é a fase dos projetos complementares que são os cálculos estruturais, o hidro-sanitário, o do conforto ambiental, a especificação de materiais, o impacto no ambiente, exigido para grandes obras. Também na engenharia, em suas mais diversas especialidades, Barragens, rodovias, centrais elétricas, saneamento básico e muitos outros, resultantes das complexas necessidades do homem moderno. 
     Realizado o cronograma físico-financeiro, obtidas todas as aprovações legais e considerando-se a disponibilidade de recursos humanos e financeiros, começa a fase executória.
     O arquiteto, ou o engenheiro, é o autor do projeto, possui até os direitos autorais, mas não é o seu dono. Ele cria para outrem, aquele que sentiu o desejo ou a necessidade. Pode se tratar de uma pessoa física, de uma organização ou o poder público.
     Segundo Boutinet (2002, p.34-35), em seu livro, Antropologia do Projeto, o termo “projeto”, com o sentido semelhante ao que conhecemos hoje, surgiu ao final do século XVII. E pode ser considerado como um sinal do iluminismo vindouro.  Já que, às sociedades tradicionais da Idade Média, o tempo futuro não podia ser antecipado, a noção de tempo era algo que se repetia: “(...) no
qual o presente pretende ser a reatualização de um passado considerado como jamais decorrido” (idem). Embora, Boutinet lembre ainda que, precocemente, no Quattrocento Italiano, Brunelleschi, rompendo uma tradição herdada da idade média, operou uma ruptura na concepção arquitetônica, ou seja, separou o projeto da sua execução. Uma nova racionalidade no trabalho arquitetônico surgia, a qual se estendeu à engenharia, nos tempos modernos. Ou seja, nem sempre quem projeta uma rodovia, por exemplo, vai ser o mesmo que a construirá. Esta divisão entre projeto e execução perdura até os nossos dias.
     A idéia antecipatória vai além, no entanto, do que vai resultar em termos construtivos. Para o faraó que encomendou seu túmulo, a pirâmide não era apenas pedras e ornamentações, por mais belo e complexo fosse o edifício resultante. Era o instrumento que tornaria possível sua própria existência, após a vida. Tratava-se, não só de um projeto-construção de um túmulo, mas de uma crença edificada.
     Juscelino Kubistchek foi eleito presidente da república, na metade do século passado, no Brasil, com uma promessa. Transferir o Distrito Federal, da cidade do Rio de Janeiro, para o cerrado goiano, localizado bem na região central do país. Toda uma ideologia de mudanças, de rupturas com o passado, o acompanhava nesta transformação. E ele, não obstante a imensa reação desfavorável, principalmente de parte considerável dos integrantes do Congresso Nacional, dos funcionários públicos federais e mesmo da sociedade civil carioca, ele conseguiu. Como prometera, em cinco anos.
     E aí, entra novamente o conceito projeto. Projeto não só de uma cidade, para além de uma nova capital, mas, sobretudo, da projeção para uma nação que ele sonhava diferente. Talvez menos rural, mais moderna, uma capital central que viesse a ensejar a articulação e a integração das várias regiões no país quase continente.
     É então que o projeto, que está em sua mente, na fase do sonho, vai precisar dos outros, dos projetos de leis, do urbanístico, do arquitetônico, do de cálculos estruturais, do paisagístico, do abastecimento d’água, do saneamento, do viário, do de comunicações e de muitos outros e, principalmente, dos recursos financeiros e humanos. Afinal, eram necessários para operacionalizar, para por de pé, aquela quase utopia.
     Entram em cena, naquele momento, a arte e a genialidade de Lúcio Costa, de Oscar Niemayer, de Joaquim Cardoso, de Burle Marx, e de muitos outros profissionais, e da articulação entre eles, gerenciados por Israel Pinheiro.  Os projetos saem das pranchetas e com o entusiasmo do presidente, de sua equipe e, sobretudo, com os milhares de trabalhadores, principalmente nordestinos, ergue-se a cidade.  Foram cinco anos, e um colossal dispêndio de recursos financeiros, materiais e humanos.
     A capital foi mudada. Brasília tornou-se realidade. Já é até cinquentona. Foi um projeto realizado, atingiu os objetivos do seu idealizador, dentro do seu cronograma. Juscelino não viveu, no entanto, para ver como o país interiorizou-se, o desenvolvimento do Centro-Oeste, as riquezas ali geradas pela agroindústria e ou pecuária. E a sonhada integração com o restante do país.
     Não havia sido previsto sítio permanente no projeto grandioso, no entanto, para os trabalhadores humildes, os que a construíram, em ritmo quase sobre-humano. Eles, os literalmente “fora do projeto”, não desejavam retornar às origens, sobravam-lhes seus acampamentos provisórios, seus barracos de madeira em suas ruas poeirentas, sem saneamento, enlameadas. Suas “cidades”, mas sem parques, sem jardins, com escolas e hospitais também improvisados. Eles, então, as defenderam contra os que as desejavam removidas.
     Hoje, passados 50 anos, as cidades satélites de Brasília, à força da vontade coletiva de seus moradores, que delas não desistiram, estão sendo, aos poucos, humanizadas e urbanizadas. Um projeto, dentro do outro: os “candangos”, como se tornaram conhecidos os trabalhadores da construção civil, àqueles que construíram com suas mãos a nova capital, também eles, “os fora do projeto”, tinham projetos, mas de vida: nada de voltar para a roça do sertão nordestino, ficar à espera de uma chuva que, às vezes, não chegava nunca...  E Brasília ali pertinho, capital, mas ainda por acabar, lhes acenava com o muito por fazer, era serviço garantido. Ficaram.
     Sim, até aí está claro. Entendemos o que o conceito projeto possa significar para arquitetura ou para a engenharia. Embora em seu sentido mais amplo, preciso, atual, só a partir dos meados do século XX, conforme Boutinet ( idem).
     Então, começam a se delinear alguns princípios sobre o que é o projeto.     Podemos também fazer algumas ilações. Nasce de um desejo, de uma necessidade. Desejo ou necessidade esta, envolta por um sistema de valores, de crenças, de princípios, de ideologias. Precisa da autonomia, do poder decisório e de recursos para que possa sair do abstrato e realizar-se concretamente. O projeto, de forma geral, é não repetitivo. Seu ineditismo acrescenta-lhe valor. Executado, termina o projeto, pode ser avaliado, criticado, corrigido, ou quem sabe, até abandonado. Ao sair do campo antecipatório e tornar-se real, ele acaba.
     Paradoxalmente, não acabam os desdobramentos. O Projeto de Brasília fez surgir inúmeras cidades em seu entorno. Não foram projetadas para ali permanecerem, nem tampouco seus habitantes. Hoje, lá se encontram, não obstante meio século ter decorrido. Embora o projeto da nova capital tenha se completado, se tornado extinto, com a execução do último de seus prédios, avenidas, jardins e lagos, a cidade em si não é a simples reprodução do que foi antecipado. Ela foi se transformando. Extrapolou, por exemplo, os limites do Plano Piloto concebido por Lúcio Costa. Logo, um fator importante que o projeto deveria poder incorporar seria o dinamismo de suas conseqüências.            Um bom projeto até que tenta estas previsões, o alcance destas previsões é que são difíceis, pois a vida moderna é complexa e são inúmeras as variáveis a serem consideradas e incorporadas.
     Indo além do puramente construtivo, agora no âmbito da gestão, Brand (1998, p.14) propõe a seguinte definição para o projeto: “operação de envergadura e complexidade notáveis, de carácter não repetitivo, que se empreende para realizar uma obra importante.” Conforme Brand (idem), nos Estados Unidos, nas décadas de 1950 e 1960, o conceito de projeto estendeu-se, neste sentido, para o seio das organizações empresariais, com o nome de “Project management”.
     A partir da década de 1980, uma cultura de projetos foi se espalhando no mundo ocidental, iniciada nos pólos mais desenvolvidos. E chegou também no âmbito educacional. Em 1983, nos Estados Unidos começou o mais recente ciclo de reformas educacionais. Deveu-se à reação política e social à divulgação dos baixos níveis de sucesso dos estudantes em testes internacionais. Eles foram apresentados e divulgados como um decisivo “indicador da vulnerabilidade nacional” face ao grau de desenvolvimento e ao nível educativo de outros países industrializados, segundo Ramirez (1992, p.413) citado por Afonso (2005, p. 65-66). Estava feita a associação entre educação e a competitividade econômica.
     Aos poucos, a ênfase na escola democrática, vivenciada por Portugal, pós 1974 e, também no Brasil, uma década depois, com a restauração do regime democrático em 1985, e, sobretudo, no desenrolar da década de 1990, foi mudando. Os discursos no Brasil, neste inicio do século XXI, começaram a se referir também à “escola de qualidade”. Embora as especificidades da escola pública, em ambos os países, divirjam muito. A gestão democrática na escola pública, no Brasil, foi oficializada, principalmente com a eleição para o diretor de cada escola e a criação do Conselho Escolar. Coexistindo no Brasil, o ainda aprendizado do que seja uma gestão democrática com a política recente da meritocracia escolar.
     A Lei de Bases da Educação Nacional, de 1996, no Brasil, estabeleceu a obrigatoriedade do Projeto Político Pedagógico de cada escola.
     Para Gadotti (2000): “Um projeto educativo pode ser tomado como promessa frente determinadas rupturas. As promessas tornam visíveis os campos de ação possível, comprometendo seus atores e autores.”
     Para Veiga (1998, cit Baffi, 2002), “o projeto pedagógico não é um conjunto de planos e projetos de professores, nem somente um documento que trata das diretrizes pedagógicas da instituição educativa, mas um produto específico que reflete a realidade da escola, situado em um contexto mais amplo que a influencia e que pode ser por ela influenciado”.
     O Projeto Político Pedagógico tem duas dimensões, consoante Baffi (idem), citando André (2001) e Veiga (1998): a política e a pedagógica.
     Sendo que a “dimensão política se cumpre na medida em que ela se realiza enquanto prática especificamente pedagógica” (Saviani, cit por Veiga, 2001, cit por Baffi, 2002).
    O Projeto Político Pedagógico da escola não é um documento que deva existir por obrigação legal, e sim um norte referencial da instituição, os valores, os princípios, um documento que avalie o contexto e especifique metas. Construído com a reflexão e a participação de toda a população escolar ou de seus representantes, docentes, gestores, funcionários, pais, alunos e da comunidade onde se encontra inserida. Sem a participação e reflexão de todos, não servirá ao fim a que se destina. Pois não ajudará a criar um espírito de corpo, uma comunidade solidária. Não ensejará ação. Continuamente deverá ser reavaliado e re-construído, pois é também processo, tal como a Educação que dele necessita.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Provocada pelo texto de Roberto Lopes, " A Escola de Pintura", repensei minhas "artes" nesta "escola":

Provocada pelo texto de Roberto Lopes, " A Escola de Pintura", repensei minhas "artes" nesta "escola":


O bom de “ser um eterno aprendiz”!
por Vera Peixoto

Então, lembro que, nos primeiros tempos na “escola de pintura”, eu escolhia os pincéis mais finos, misturava pouquíssimas cores, as pinceladas eram tão sutis, quase invisíveis...  Não desejava que minha tela chamasse atenção de ninguém... Isso foi bom para mim por anos...
Depois, nem lembro o porquê, aquele meu modo de pintar não mais me satisfazia. Ousei sair da zona de conforto, fui devagarzinho atrás dos materiais menos acessíveis, as cores foram ficando fortes, as pinceladas, mais expressivas!  As cores pastéis já não eram sempre as minhas preferidas...
Estava feliz e é essa a nossa missão na “escola”, não é? Errava, borrava, experimentava, repintava, refazia e seguia em frente. A produção quase febril.  Trabalhava muito na minha tela, quase nem parava...
De repente, me descubro fazendo muitos borrões, as cores estão excessivas, as pinceladas, grosseiras...  Epa! Não há vista cansada que justifique... Tempo de parar para meditar, refletir e corrigir, não desejo borrões permanentes! Reaprender a suavizar a pincelada e a correta mistura das tintas. Não dá para voltar à sutileza dos primeiros tempos. Sei que não conseguiria por mais que tentasse, embora sejam tentadoras as lembranças daquela quase invisibilidade dos primeiros traços...
Meu estilo de pintar foi-se alterando e é irreversível. Os borrões, no entanto, é que devem dar lugar ao que desejo realmente na minha tela! A grande e maravilhosa oportunidade desta “escola” é que somos eternos aprendizes! 
Gostei muito de um texto que li:



A Escola de Pintura
Por Roberto Lopes

Outro dia um amigo me perguntou o que eu acho que é a vida.
Resposta difícil, não é?
Vou contar como respondi.
Imagine uma escola de pintura. Ao entrar, você recebe uma tela em branco e encontra vários alunos pintando. Muitos estão trabalhando há anos, e os quadros são de todos os tipos, desde obras maravilhosas até telas completamente destruídas. As tintas, os pincéis e os materiais de pintura estão espalhados pela sala, alguns bem acessíveis, outros em locais difíceis. Apesar de ser uma escola, não há professores. É tudo por sua conta.
O que você faria nessa situação? Pegaria qualquer pincel e simplesmente espalharia tintas em sua tela? Observaria os que estão trabalhando e tentaria imitar alguém talentoso? Juntaria sua tela à de outras pessoas e pintaria um grande painel em equipe? Tentaria criar uma obra original e aprender com seus próprios erros? Utilizaria apenas os materiais mais acessíveis ou batalharia para conseguir também os mais difíceis?
Volto a perguntar, o que você faria?
Na minha opinião, a vida é como esta escola de pintura. As pinceladas são as nossas ações.
 Às vezes, damos pinceladas de mestre. Usamos o tipo certo de pincel, a mistura correta das cores e movimentos precisos. São as nossas boas ações. Aquelas que nos fazem dormir tranqüilos e com um sorriso nos lábios.
Outras vezes, borramos todo o nosso quadro e pensamos: “Argh! Estraguei tudo. Não tem mais jeito.” Desejamos até jogar a tela fora e parar tudo. Vamos dormir arrasados e querendo morrer.
É nesta hora que precisamos lembrar da escola de pintura. Não se desespere. Por mais borrado que seu quadro esteja, você sempre pode pegar um pincel limpo, as tintas certas e pintar por cima.
Se você disse algo ruim para alguém, peça perdão. Se fez algo que não deveria, volte lá e conserte. Se deixou passar uma oportunidade de elogiar, procure a pessoa ou pegue o telefone e faça o elogio. Se teve vontade de acariciar alguém e não o fez, faça-o na próxima vez que encontrá-lo (a) e diga-lhe apenas que está acertando seu quadro – tenho certeza de que você será compreendido.
A única coisa que você não deve fazer é deixar os borrões aparecendo. Não interessa quão antigos eles sejam. Se estiverem lá, corrija-os. É corrigindo que aprendemos a não cometê-los e nos tornamos artistas cada vez melhores.
Fazendo assim, não importa se teremos mais duzentos anos ou apenas mais um dia para nossa pintura. Quando formos chamados para expô-la, ela estará perfeita. Talento, tenho certeza, todos nós temos.