sábado, 2 de junho de 2012

Um sonho, um projeto, uma realização


O PROJETO
     Para Gadotti (2000), “Todo projeto supõe ruptura com o presente e promessas para o futuro. Projetar significa tentar quebrar um estado confortável para arriscar-se, atravessar um período de instabilidade e buscar uma estabilidade em função de promessa que cada projeto contém de estado melhor do que o presente.”
     Afinal, projeto o que é? Uma antecipação do futuro, uma ruptura com o estabelecido? Uma afirmação pessoal ou coletiva?  Em arquitetura fica mais claro entender o conceito.  Com os seus croquis, no anteprojeto, vai o arquiteto esculpindo, com seus traços, a antecipação de algo que será construído.  Vai aperfeiçoando até que o projeto esteja pronto, ilustrado com recursos de perspectivas e maquetes.
     Quase concomitantemente é a fase dos projetos complementares que são os cálculos estruturais, o hidro-sanitário, o do conforto ambiental, a especificação de materiais, o impacto no ambiente, exigido para grandes obras. Também na engenharia, em suas mais diversas especialidades, Barragens, rodovias, centrais elétricas, saneamento básico e muitos outros, resultantes das complexas necessidades do homem moderno. 
     Realizado o cronograma físico-financeiro, obtidas todas as aprovações legais e considerando-se a disponibilidade de recursos humanos e financeiros, começa a fase executória.
     O arquiteto, ou o engenheiro, é o autor do projeto, possui até os direitos autorais, mas não é o seu dono. Ele cria para outrem, aquele que sentiu o desejo ou a necessidade. Pode se tratar de uma pessoa física, de uma organização ou o poder público.
     Segundo Boutinet (2002, p.34-35), em seu livro, Antropologia do Projeto, o termo “projeto”, com o sentido semelhante ao que conhecemos hoje, surgiu ao final do século XVII. E pode ser considerado como um sinal do iluminismo vindouro.  Já que, às sociedades tradicionais da Idade Média, o tempo futuro não podia ser antecipado, a noção de tempo era algo que se repetia: “(...) no
qual o presente pretende ser a reatualização de um passado considerado como jamais decorrido” (idem). Embora, Boutinet lembre ainda que, precocemente, no Quattrocento Italiano, Brunelleschi, rompendo uma tradição herdada da idade média, operou uma ruptura na concepção arquitetônica, ou seja, separou o projeto da sua execução. Uma nova racionalidade no trabalho arquitetônico surgia, a qual se estendeu à engenharia, nos tempos modernos. Ou seja, nem sempre quem projeta uma rodovia, por exemplo, vai ser o mesmo que a construirá. Esta divisão entre projeto e execução perdura até os nossos dias.
     A idéia antecipatória vai além, no entanto, do que vai resultar em termos construtivos. Para o faraó que encomendou seu túmulo, a pirâmide não era apenas pedras e ornamentações, por mais belo e complexo fosse o edifício resultante. Era o instrumento que tornaria possível sua própria existência, após a vida. Tratava-se, não só de um projeto-construção de um túmulo, mas de uma crença edificada.
     Juscelino Kubistchek foi eleito presidente da república, na metade do século passado, no Brasil, com uma promessa. Transferir o Distrito Federal, da cidade do Rio de Janeiro, para o cerrado goiano, localizado bem na região central do país. Toda uma ideologia de mudanças, de rupturas com o passado, o acompanhava nesta transformação. E ele, não obstante a imensa reação desfavorável, principalmente de parte considerável dos integrantes do Congresso Nacional, dos funcionários públicos federais e mesmo da sociedade civil carioca, ele conseguiu. Como prometera, em cinco anos.
     E aí, entra novamente o conceito projeto. Projeto não só de uma cidade, para além de uma nova capital, mas, sobretudo, da projeção para uma nação que ele sonhava diferente. Talvez menos rural, mais moderna, uma capital central que viesse a ensejar a articulação e a integração das várias regiões no país quase continente.
     É então que o projeto, que está em sua mente, na fase do sonho, vai precisar dos outros, dos projetos de leis, do urbanístico, do arquitetônico, do de cálculos estruturais, do paisagístico, do abastecimento d’água, do saneamento, do viário, do de comunicações e de muitos outros e, principalmente, dos recursos financeiros e humanos. Afinal, eram necessários para operacionalizar, para por de pé, aquela quase utopia.
     Entram em cena, naquele momento, a arte e a genialidade de Lúcio Costa, de Oscar Niemayer, de Joaquim Cardoso, de Burle Marx, e de muitos outros profissionais, e da articulação entre eles, gerenciados por Israel Pinheiro.  Os projetos saem das pranchetas e com o entusiasmo do presidente, de sua equipe e, sobretudo, com os milhares de trabalhadores, principalmente nordestinos, ergue-se a cidade.  Foram cinco anos, e um colossal dispêndio de recursos financeiros, materiais e humanos.
     A capital foi mudada. Brasília tornou-se realidade. Já é até cinquentona. Foi um projeto realizado, atingiu os objetivos do seu idealizador, dentro do seu cronograma. Juscelino não viveu, no entanto, para ver como o país interiorizou-se, o desenvolvimento do Centro-Oeste, as riquezas ali geradas pela agroindústria e ou pecuária. E a sonhada integração com o restante do país.
     Não havia sido previsto sítio permanente no projeto grandioso, no entanto, para os trabalhadores humildes, os que a construíram, em ritmo quase sobre-humano. Eles, os literalmente “fora do projeto”, não desejavam retornar às origens, sobravam-lhes seus acampamentos provisórios, seus barracos de madeira em suas ruas poeirentas, sem saneamento, enlameadas. Suas “cidades”, mas sem parques, sem jardins, com escolas e hospitais também improvisados. Eles, então, as defenderam contra os que as desejavam removidas.
     Hoje, passados 50 anos, as cidades satélites de Brasília, à força da vontade coletiva de seus moradores, que delas não desistiram, estão sendo, aos poucos, humanizadas e urbanizadas. Um projeto, dentro do outro: os “candangos”, como se tornaram conhecidos os trabalhadores da construção civil, àqueles que construíram com suas mãos a nova capital, também eles, “os fora do projeto”, tinham projetos, mas de vida: nada de voltar para a roça do sertão nordestino, ficar à espera de uma chuva que, às vezes, não chegava nunca...  E Brasília ali pertinho, capital, mas ainda por acabar, lhes acenava com o muito por fazer, era serviço garantido. Ficaram.
     Sim, até aí está claro. Entendemos o que o conceito projeto possa significar para arquitetura ou para a engenharia. Embora em seu sentido mais amplo, preciso, atual, só a partir dos meados do século XX, conforme Boutinet ( idem).
     Então, começam a se delinear alguns princípios sobre o que é o projeto.     Podemos também fazer algumas ilações. Nasce de um desejo, de uma necessidade. Desejo ou necessidade esta, envolta por um sistema de valores, de crenças, de princípios, de ideologias. Precisa da autonomia, do poder decisório e de recursos para que possa sair do abstrato e realizar-se concretamente. O projeto, de forma geral, é não repetitivo. Seu ineditismo acrescenta-lhe valor. Executado, termina o projeto, pode ser avaliado, criticado, corrigido, ou quem sabe, até abandonado. Ao sair do campo antecipatório e tornar-se real, ele acaba.
     Paradoxalmente, não acabam os desdobramentos. O Projeto de Brasília fez surgir inúmeras cidades em seu entorno. Não foram projetadas para ali permanecerem, nem tampouco seus habitantes. Hoje, lá se encontram, não obstante meio século ter decorrido. Embora o projeto da nova capital tenha se completado, se tornado extinto, com a execução do último de seus prédios, avenidas, jardins e lagos, a cidade em si não é a simples reprodução do que foi antecipado. Ela foi se transformando. Extrapolou, por exemplo, os limites do Plano Piloto concebido por Lúcio Costa. Logo, um fator importante que o projeto deveria poder incorporar seria o dinamismo de suas conseqüências.            Um bom projeto até que tenta estas previsões, o alcance destas previsões é que são difíceis, pois a vida moderna é complexa e são inúmeras as variáveis a serem consideradas e incorporadas.
     Indo além do puramente construtivo, agora no âmbito da gestão, Brand (1998, p.14) propõe a seguinte definição para o projeto: “operação de envergadura e complexidade notáveis, de carácter não repetitivo, que se empreende para realizar uma obra importante.” Conforme Brand (idem), nos Estados Unidos, nas décadas de 1950 e 1960, o conceito de projeto estendeu-se, neste sentido, para o seio das organizações empresariais, com o nome de “Project management”.
     A partir da década de 1980, uma cultura de projetos foi se espalhando no mundo ocidental, iniciada nos pólos mais desenvolvidos. E chegou também no âmbito educacional. Em 1983, nos Estados Unidos começou o mais recente ciclo de reformas educacionais. Deveu-se à reação política e social à divulgação dos baixos níveis de sucesso dos estudantes em testes internacionais. Eles foram apresentados e divulgados como um decisivo “indicador da vulnerabilidade nacional” face ao grau de desenvolvimento e ao nível educativo de outros países industrializados, segundo Ramirez (1992, p.413) citado por Afonso (2005, p. 65-66). Estava feita a associação entre educação e a competitividade econômica.
     Aos poucos, a ênfase na escola democrática, vivenciada por Portugal, pós 1974 e, também no Brasil, uma década depois, com a restauração do regime democrático em 1985, e, sobretudo, no desenrolar da década de 1990, foi mudando. Os discursos no Brasil, neste inicio do século XXI, começaram a se referir também à “escola de qualidade”. Embora as especificidades da escola pública, em ambos os países, divirjam muito. A gestão democrática na escola pública, no Brasil, foi oficializada, principalmente com a eleição para o diretor de cada escola e a criação do Conselho Escolar. Coexistindo no Brasil, o ainda aprendizado do que seja uma gestão democrática com a política recente da meritocracia escolar.
     A Lei de Bases da Educação Nacional, de 1996, no Brasil, estabeleceu a obrigatoriedade do Projeto Político Pedagógico de cada escola.
     Para Gadotti (2000): “Um projeto educativo pode ser tomado como promessa frente determinadas rupturas. As promessas tornam visíveis os campos de ação possível, comprometendo seus atores e autores.”
     Para Veiga (1998, cit Baffi, 2002), “o projeto pedagógico não é um conjunto de planos e projetos de professores, nem somente um documento que trata das diretrizes pedagógicas da instituição educativa, mas um produto específico que reflete a realidade da escola, situado em um contexto mais amplo que a influencia e que pode ser por ela influenciado”.
     O Projeto Político Pedagógico tem duas dimensões, consoante Baffi (idem), citando André (2001) e Veiga (1998): a política e a pedagógica.
     Sendo que a “dimensão política se cumpre na medida em que ela se realiza enquanto prática especificamente pedagógica” (Saviani, cit por Veiga, 2001, cit por Baffi, 2002).
    O Projeto Político Pedagógico da escola não é um documento que deva existir por obrigação legal, e sim um norte referencial da instituição, os valores, os princípios, um documento que avalie o contexto e especifique metas. Construído com a reflexão e a participação de toda a população escolar ou de seus representantes, docentes, gestores, funcionários, pais, alunos e da comunidade onde se encontra inserida. Sem a participação e reflexão de todos, não servirá ao fim a que se destina. Pois não ajudará a criar um espírito de corpo, uma comunidade solidária. Não ensejará ação. Continuamente deverá ser reavaliado e re-construído, pois é também processo, tal como a Educação que dele necessita.

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