O
PROJETO
Para Gadotti (2000), “Todo projeto supõe
ruptura com o presente e promessas para o futuro. Projetar significa tentar
quebrar um estado confortável para arriscar-se, atravessar um período de
instabilidade e buscar uma estabilidade em função de promessa que cada projeto
contém de estado melhor do que o presente.”
Afinal, projeto o que é? Uma antecipação
do futuro, uma ruptura com o estabelecido? Uma afirmação pessoal ou coletiva? Em arquitetura fica mais claro entender o
conceito. Com os seus croquis, no anteprojeto,
vai o arquiteto esculpindo, com seus traços, a antecipação de algo que será
construído. Vai aperfeiçoando até que o
projeto esteja pronto, ilustrado com recursos de perspectivas e maquetes.
Quase concomitantemente é a fase dos
projetos complementares que são os cálculos estruturais, o hidro-sanitário, o do
conforto ambiental, a especificação de materiais, o impacto no ambiente,
exigido para grandes obras. Também na engenharia, em suas mais diversas
especialidades, Barragens, rodovias, centrais elétricas, saneamento básico e
muitos outros, resultantes das complexas necessidades do homem moderno.
Realizado o cronograma físico-financeiro,
obtidas todas as aprovações legais e considerando-se a disponibilidade de recursos
humanos e financeiros, começa a fase executória.
O arquiteto, ou o engenheiro, é o autor do
projeto, possui até os direitos autorais, mas não é o seu dono. Ele cria para outrem,
aquele que sentiu o desejo ou a necessidade. Pode se tratar de uma pessoa física,
de uma organização ou o poder público.
Segundo Boutinet (2002, p.34-35), em seu
livro, Antropologia do Projeto, o termo “projeto”, com o sentido semelhante ao
que conhecemos hoje, surgiu ao final do século XVII. E pode ser considerado como
um sinal do iluminismo vindouro. Já que,
às sociedades tradicionais da Idade Média, o tempo futuro não podia ser
antecipado, a noção de tempo era algo que se repetia: “(...) no
qual
o presente pretende ser a reatualização de um passado considerado como jamais
decorrido” (idem). Embora, Boutinet lembre ainda que, precocemente, no
Quattrocento Italiano, Brunelleschi, rompendo uma tradição herdada da idade
média, operou uma ruptura na concepção arquitetônica, ou seja, separou o
projeto da sua execução. Uma nova racionalidade no trabalho arquitetônico
surgia, a qual se estendeu à engenharia, nos tempos modernos. Ou seja, nem
sempre quem projeta uma rodovia, por exemplo, vai ser o mesmo que a construirá.
Esta divisão entre projeto e execução perdura até os nossos dias.
A idéia antecipatória vai além, no
entanto, do que vai resultar em termos construtivos. Para o faraó que
encomendou seu túmulo, a pirâmide não era apenas pedras e ornamentações, por mais
belo e complexo fosse o edifício resultante. Era o instrumento que tornaria
possível sua própria existência, após a vida. Tratava-se, não só de um
projeto-construção de um túmulo, mas de uma crença edificada.
Juscelino Kubistchek foi eleito presidente
da república, na metade do século passado, no Brasil, com uma promessa.
Transferir o Distrito Federal, da cidade do Rio de Janeiro, para o cerrado
goiano, localizado bem na região central do país. Toda uma ideologia de
mudanças, de rupturas com o passado, o acompanhava nesta transformação. E ele,
não obstante a imensa reação desfavorável, principalmente de parte considerável
dos integrantes do Congresso Nacional, dos funcionários públicos federais e
mesmo da sociedade civil carioca, ele conseguiu. Como prometera, em cinco anos.
E aí, entra novamente o conceito projeto.
Projeto não só de uma cidade, para além de uma nova capital, mas, sobretudo, da
projeção para uma nação que ele sonhava diferente. Talvez menos rural, mais
moderna, uma capital central que viesse a ensejar a articulação e a integração
das várias regiões no país quase continente.
É então que o projeto, que está em sua
mente, na fase do sonho, vai precisar dos outros, dos projetos de leis, do
urbanístico, do arquitetônico, do de cálculos estruturais, do paisagístico, do
abastecimento d’água, do saneamento, do viário, do de comunicações e de muitos
outros e, principalmente, dos recursos financeiros e humanos. Afinal, eram
necessários para operacionalizar, para por de pé, aquela quase utopia.
Entram em cena, naquele momento, a arte e
a genialidade de Lúcio Costa, de Oscar Niemayer, de Joaquim Cardoso, de Burle
Marx, e de muitos outros profissionais, e da articulação entre eles, gerenciados
por Israel Pinheiro. Os projetos saem
das pranchetas e com o entusiasmo do presidente, de sua equipe e, sobretudo,
com os milhares de trabalhadores, principalmente nordestinos, ergue-se a
cidade. Foram cinco anos, e um colossal
dispêndio de recursos financeiros, materiais e humanos.
A capital foi mudada. Brasília tornou-se
realidade. Já é até cinquentona. Foi um projeto realizado, atingiu os objetivos
do seu idealizador, dentro do seu cronograma. Juscelino não viveu, no entanto,
para ver como o país interiorizou-se, o desenvolvimento do Centro-Oeste, as
riquezas ali geradas pela agroindústria e ou pecuária. E a sonhada integração
com o restante do país.
Não havia sido previsto sítio permanente
no projeto grandioso, no entanto, para os trabalhadores humildes, os que a
construíram, em ritmo quase sobre-humano. Eles, os literalmente “fora do
projeto”, não desejavam retornar às origens, sobravam-lhes seus acampamentos
provisórios, seus barracos de madeira em suas ruas poeirentas, sem saneamento,
enlameadas. Suas “cidades”, mas sem parques, sem jardins, com escolas e
hospitais também improvisados. Eles, então, as defenderam contra os que as
desejavam removidas.
Hoje, passados 50 anos, as cidades
satélites de Brasília, à força da vontade coletiva de seus moradores, que delas
não desistiram, estão sendo, aos poucos, humanizadas e urbanizadas. Um projeto,
dentro do outro: os “candangos”, como se tornaram conhecidos os trabalhadores
da construção civil, àqueles que construíram com suas mãos a nova capital,
também eles, “os fora do projeto”, tinham projetos, mas de vida: nada de
voltar para a roça do sertão nordestino, ficar à espera de uma chuva que, às
vezes, não chegava nunca... E Brasília
ali pertinho, capital, mas ainda por acabar, lhes acenava com o muito por
fazer, era serviço garantido. Ficaram.
Sim, até aí está claro. Entendemos o que o
conceito projeto possa significar para arquitetura ou para a engenharia. Embora
em seu sentido mais amplo, preciso, atual, só a partir dos meados do século XX,
conforme Boutinet ( idem).
Então, começam a se delinear alguns
princípios sobre o que é o projeto.
Podemos também fazer algumas ilações. Nasce de um desejo, de uma
necessidade. Desejo ou necessidade esta, envolta por um sistema de valores, de
crenças, de princípios, de ideologias. Precisa da autonomia, do poder decisório
e de recursos para que possa sair do abstrato e realizar-se concretamente. O
projeto, de forma geral, é não repetitivo. Seu ineditismo acrescenta-lhe valor.
Executado, termina o projeto, pode ser avaliado, criticado, corrigido, ou quem
sabe, até abandonado. Ao sair do campo antecipatório e tornar-se real, ele
acaba.
Paradoxalmente, não acabam os
desdobramentos. O Projeto de Brasília fez surgir inúmeras cidades em seu
entorno. Não foram projetadas para ali permanecerem, nem tampouco seus
habitantes. Hoje, lá se encontram, não obstante meio século ter decorrido.
Embora o projeto da nova capital tenha se completado, se tornado extinto, com a
execução do último de seus prédios, avenidas, jardins e lagos, a cidade em si
não é a simples reprodução do que foi antecipado. Ela foi se transformando.
Extrapolou, por exemplo, os limites do Plano Piloto concebido por Lúcio Costa. Logo,
um fator importante que o projeto deveria poder incorporar seria o dinamismo de
suas conseqüências. Um bom projeto até que tenta estas
previsões, o alcance destas previsões é que são difíceis, pois a vida moderna é
complexa e são inúmeras as variáveis a serem consideradas e incorporadas.
Indo além do puramente construtivo, agora
no âmbito da gestão, Brand (1998, p.14) propõe a seguinte definição para o
projeto: “operação de envergadura e complexidade notáveis, de carácter não
repetitivo, que se empreende para realizar uma obra importante.” Conforme Brand
(idem), nos Estados Unidos, nas décadas de 1950 e 1960, o conceito de projeto
estendeu-se, neste sentido, para o seio das organizações empresariais, com o
nome de “Project management”.
A partir da década de 1980, uma cultura de
projetos foi se espalhando no mundo ocidental, iniciada nos pólos mais
desenvolvidos. E chegou também no âmbito educacional. Em 1983, nos Estados Unidos
começou o mais recente ciclo de reformas educacionais. Deveu-se à reação
política e social à divulgação dos baixos níveis de sucesso dos estudantes em
testes internacionais. Eles foram apresentados e divulgados como um decisivo
“indicador da vulnerabilidade nacional” face ao grau de desenvolvimento e ao
nível educativo de outros países industrializados, segundo Ramirez (1992, p.413)
citado por Afonso (2005, p. 65-66). Estava feita a associação entre educação e
a competitividade econômica.
Aos poucos, a ênfase na escola democrática,
vivenciada por Portugal, pós 1974 e, também no Brasil, uma década depois, com a
restauração do regime democrático em 1985, e, sobretudo, no desenrolar da
década de 1990, foi mudando. Os discursos no Brasil, neste inicio do século
XXI, começaram a se referir também à “escola de qualidade”. Embora as
especificidades da escola pública, em ambos os países, divirjam muito. A gestão
democrática na escola pública, no Brasil, foi oficializada, principalmente com
a eleição para o diretor de cada escola e a criação do Conselho Escolar. Coexistindo
no Brasil, o ainda aprendizado do que seja uma gestão democrática com a
política recente da meritocracia escolar.
A Lei de Bases da Educação Nacional, de
1996, no Brasil, estabeleceu a obrigatoriedade do Projeto Político Pedagógico
de cada escola.
Para Gadotti (2000): “Um projeto educativo
pode ser tomado como promessa frente determinadas rupturas. As promessas tornam
visíveis os campos de ação possível, comprometendo seus atores e autores.”
Para Veiga (1998, cit Baffi, 2002), “o
projeto pedagógico não é um conjunto de planos e projetos de professores, nem
somente um documento que trata das diretrizes pedagógicas da instituição
educativa, mas um produto específico que reflete a realidade da escola, situado
em um contexto mais amplo que a influencia e que pode ser por ela
influenciado”.
O Projeto Político Pedagógico tem duas
dimensões, consoante Baffi (idem), citando André (2001) e Veiga (1998): a
política e a pedagógica.
Sendo que a “dimensão política se cumpre
na medida em que ela se realiza enquanto prática especificamente pedagógica”
(Saviani, cit por Veiga, 2001, cit por Baffi, 2002).
O Projeto Político Pedagógico da escola não
é um documento que deva existir por obrigação legal, e sim um norte referencial
da instituição, os valores, os princípios, um documento que avalie o contexto e
especifique metas. Construído com a reflexão e a participação de toda a
população escolar ou de seus representantes, docentes, gestores, funcionários,
pais, alunos e da comunidade onde se encontra inserida. Sem a participação e
reflexão de todos, não servirá ao fim a que se destina. Pois não ajudará a
criar um espírito de corpo, uma comunidade solidária. Não ensejará ação. Continuamente
deverá ser reavaliado e re-construído, pois é também processo, tal como a
Educação que dele necessita.
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